[ 01 ] Antes do nome: Entrain, 1992
A cultura de festas ao ar livre da Nova Zelândia tem uma data de início documentada: a passagem de ano de 1992, no Stardust Bowl, na Takaka Hill, com cerca de seiscentas pessoas. Chamava-se Entrain e continuou nos anos seguintes até à última, na passagem de 1996 em Golden Downs, com três mil.[01]
O que aconteceu a seguir é raro estar assim tão bem registado. Três da equipa do Entrain — Murray Kingi, Tim Owens e Simon Kong — começaram a falar de uma festa nova na viagem de regresso, no dia 1 de janeiro de 1996. Dessa conversa saiu The Gathering.[01]
O Entrain não estava sozinho. A ilha do Sul teve um circuito inteiro de festas na natureza durante os anos 90: Sign of the Bellbird nas Port Hills de Christchurch a partir de 1994, The Quickening em dezembro de 1995, as festas de solstício de inverno da Eudaemony em Otago, o M·A·S·S·I·V·E em Canterbury com o seu sistema de som montado num Unimog, e a série do Cave Stream em Castle Hill.[02]
[ 02 ] The Gathering, 1996–2002
A primeira edição realizou-se na passagem de ano de 1996 para 1997, em Canaan Downs, na Golden Bay, com cerca de quatro mil pessoas e um orçamento de noventa mil dólares. O sítio de história do próprio Ministério da Cultura neozelandês atribui a ideia ao DJ de Nelson Murray Kingi, depois de este ter ficado insatisfeito com as festas Entrain; a AudioCulture nomeia uma equipa fundadora de cinco pessoas. Publicamos as duas versões: são compatíveis se se distinguir quem teve a ideia de quem a produziu.[03][04]
Cresceu depressa. A imprensa da altura, reproduzida no arquivo do próprio festival, dá nove mil bilhetes mais cerca de mil pessoas de produção e artistas na edição de 1998/99, e descreve um evento que a polícia considerou notavelmente pacífico. O festival tinha mais de cem DJ nacionais, cerca de trinta e cinco actos ao vivo e zonas separadas para trance, drum and bass, house, hardcore, ambiente e música do mundo.[05][04]
A edição do milénio, em 1999/2000, é a que ficou. Quinze mil pessoas, chuva torrencial a começar dez minutos antes de abrirem os portões, e uma proporção significativa de bilhetes falsificados — o organizador conta que a polícia mandou deixar entrar toda a gente. É dele também a frase que resume a noite: atrasou a chegada do milénio em cinco ou seis minutos porque a produção não estava pronta.[06]
Acabou em 2002. A empresa foi para liquidação voluntária pelo seu único accionista, Murray Kingi, com dívidas acima dos quatrocentos mil dólares, segundo o Nelson Mail de julho de 2002 — reproduzido, na íntegra, no arquivo que o próprio festival mantém online. Uma reconstituição feita pela cena calcula responsabilidades finais de 684 513 dólares; é uma fonte secundária e assinalamo-la como tal.[07][08]
Existem dois filmes. O documentário de 1997/98, produzido por Alison Green e realizado por Kylie Plunkett, estreou no Wellington Short Film Fringe Festival em julho de 1998 e está hoje na colecção nacional do Ngā Taonga Sound & Vision. O da última edição, «Gather Round», foi para televisão em 2002 e está catalogado no NZ On Screen.[09][10]
Uma coisa que não conseguimos resolver: se o recinto ficava dentro da reserva de Canaan Downs, hoje gerida pelo Departamento de Conservação, ou na propriedade agrícola vizinha. A página oficial da reserva não menciona o festival, e não encontrámos nenhuma licença, consentimento ou decisão municipal publicada que o esclareça.[11]
[ 03 ] Auckland: a K Road e as lojas
Auckland tem a sua própria linhagem, e está documentada: da Unity, na estação ferroviária em 1989/90, com duas mil e quinhentas pessoas, até à Brain, à Stomping Core e à Subtronix nos anos 90. Vale a pena notar o que essa história não diz: goa trance e psytrance não aparecem nomeados nela.[12]
A infra-estrutura estava nas lojas. Na Karangahape Road, a Cyberculture abriu em 1993 em instalações de cave no número 151, montada por Heath Burgoyne com Mike Weston. Juntava discos, arte, estúdio e aluguer de vídeo, e foi a primeira loja neozelandesa a oferecer acesso gratuito à internet. Juntou o público que Burgoyne já tinha no programa «Bizarre Beats» da 95bFM à arte alternativa e à produção de eventos de Weston.[13]
A partir do final de 1994, Weston passou a gerir dali a sua editora e promotora, a PULSE. A loja foi vendida em 1997 a Steve Baird, descrito pela AudioCulture como promotor de psy-trance da Cydonia Records. Burgoyne abriu depois a Soulsonic; Weston rebaptizou o seu negócio como The Area em 1998. O que aconteceu à loja depois da venda, incluindo a data em que fechou, não está documentado em lado nenhum que consigamos consultar.[13]
Havia mais: a Bizarre Beats como loja, aberta por Mark Wallbank e Mike Rea na St Kevin's Arcade por volta de 1994; a Crawlspace Records, de 1992 a 2002, com catálogo indie e não electrónico; a Crucial Records na Canterbury Arcade no final dos anos 90, com techno e house em vinil. Na rádio, os programas de dança da 95bFM da década eram o Beats Per Minute, o Kaos Techno Show, o Stinky Grooves e o Nice'n'Urlich.[13][14]
[ 04 ] Depois de 2002: quem ficou com a colina
O Splore começou antes do fim do Gathering, na passagem de ano de 1998/99, na praia de Karioitahi, fundado por Amanda Wright e Jamie Larnach; está no Tapapakanga Regional Park desde 2006. Em 2026 acaba: a curadoria explicou publicamente que as vendas de bilhetes não acompanharam os custos e que um pedido de apoio público foi recusado.[15][16]
A terra de Canaan Downs mudou de mãos de outra maneira: um coletivo local comprou-a em 2011 e passou a operá-la como cooperativa. É lá que se realiza o Luminate. O Kiwiburn, o «burn» regional neozelandês, nasceu dentro do festival Visionz em 2004 e passou a evento autónomo no ano seguinte.[02][17][18]
O Twisted Frequency assume a herança direta: realiza-se no Cobb Valley, que descreve como o último local do Gathering. Em dezembro de 2025, o diretor David Tait avisou publicamente que a edição de 2026 pode ser a última, com dívida fiscal acumulada e menos mil bilhetes vendidos do que na décima edição.[19][20]
O calendário psicadélico atual não é pequeno: o Dimension em Nukutawhiti, Northland, com a décima edição em 2026; o AUM, na South Head a norte de Auckland, com passagem de ano e uma série de inverno; o Yatra, no Cobb Valley; e o Lost in Paradise, no Northland, do coletivo NZ Psytribe. As datas verificáveis estão nos índices de festas.[21][22][23][24]
[ 05 ] Editoras e artistas
A produção discográfica neozelandesa de psytrance é pequena e está mal indexada, mas existe. A Native Harmonics Records, fundada pela DJ Maia, radicada em Tākaka, estreou-se em 2008 com a compilação «Earthbeatz», reunindo sobretudo produtores neozelandeses ligados ao festival de fim de ano em Canaan Downs.[25][26]
Há uma editora nesta história que quase ninguém regista. O Discogs tem a Manta Recordings, descrita como “editora de trance progressivo (psy) da Nova Zelândia”, com uma morada de contacto impressa na própria página: Manta Recordings, 151 Karangahape Rd, Newton, Auckland. O endereço do sítio que a página indica é cyberculture.co.nz. É a mesma morada que a AudioCulture dá à loja Cyberculture, aberta em instalações de cave no número 151 da K Road em 1993. A Manta lançou cinco discos entre 2001 e 2003, e o primeiro foi «The Pylon EP» — Pylon é um dos pseudónimos dos Antix, gravado no Slow Burning Studios, em Kare Kare, em novembro e dezembro de 2000. Não encontrámos nenhuma fonte publicada que diga que a loja era dona da editora. O que está documentado é a morada partilhada e o domínio partilhado, e é só isso que afirmamos.[27][13][28]
O índice do Discogs para lançamentos simultaneamente neozelandeses e psy-trance devolve, entre outros, «Techngnosis» dos Variant 386 (1997), o «The Pylon EP» (2001), o «Expander EP» do Cusp (2006) e as compilações «Transmit» (1998), «One Point Perspective» (2002), «Tall Poppy Syndrome» (2008) e «Cryptozoology» (2012). É um ponto de partida, não um catálogo fechado.[29]
Um caso que estava mal contado aqui: a ficha de artista do Discogs descreve os Antix como “um duo de trance progressivo e house composto por 2 irmãos radicados em Auckland, Nova Zelândia” — Barton e Hayden Strom, com o Pylon entre os seus pseudónimos. A confusão vem de duas coisas: o álbum de 2005, «Twin Coast Discovery», está catalogado como um lançamento dinamarquês, porque saiu na Iboga; e pelo menos cinco actos sem relação nenhuma usam o nome Antix, incluindo uma segunda banda neozelandesa, de Christchurch.[28][30][21]
[ 06 ] A lei, as drogas e a redução de riscos
O MDMA chegou à Nova Zelândia com as primeiras festas de house, em 1989. Em outubro de 1998 morreu Ngaire O'Neill depois de tomar ecstasy, e em março de 1999 morreu Jamie Langridge numa festa na ilha de Pakatoa; seguiu-se o pânico moral e a promessa política de reclassificar a substância.[31]
O enquadramento mudou de vez em 2021: a Drug and Substance Checking Legislation Act tornou permanentemente legal a testagem de substâncias em festivais, com efeito a partir de 7 de dezembro desse ano e financiamento público para os operadores. Na cena psicadélica isto é visível: o Twisted Frequency nomeia a Psy-Care NZ e a KnowYourStuffNZ como parceiros de redução de riscos.[32][19]
Não encontrámos nada equivalente à Criminal Justice Act britânica de 1994: nenhuma lei neozelandesa dirigida especificamente às festas ao ar livre, nenhuma operação policial nomeada contra uma festa psicadélica. Procurámos; se existe, não está publicado onde chegámos.[24]
[ 07 ] O que não sabemos
Quem tocou goa trance primeiro na Nova Zelândia, em que festa e em que ano, não está documentado em nenhuma fonte que tenhamos encontrado. A história da AudioCulture sobre as festas de Auckland dos anos 90 não nomeia o género uma única vez. O primeiro registo de grande escala que conseguimos datar é o palco de goa trance da primeira edição do Gathering, em 1996/97.[12][04]
Também não sabemos: qual foi a primeira loja neozelandesa a vender o género; os anos de fundação e os fundadores do AUM, do Yatra e do Dimension; e se algum artista maori ou do Pacífico trabalhou especificamente em psytrance — procurámos e não encontrámos nenhuma fonte publicada que o diga. Se souberes, e tiveres como mostrar, é isso que falta a este arquivo.[22][21]
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